Antes de escrever a história, gostaria que ninguém me julgasse, ao término da leitura. Por mais cruel que pareça, eu JURO que não me controlei no dia. Estamos combinados?
A morte nunca foi e nunca será uma coisa fácil de lidar, por mais banal que pareça ou por mais evoluído espiritualmente que sejamos, é sempre embaraçoso passar por uma perda.
Como já devem deduzir, a história de hoje conta uma fatalidade.
Era uma tarde como todas as outras, eu estava sozinha em casa, comendo meu bom Biscoito Treloso com um copo de água (e depois notando o dente preto), a Sessão da tarde estava uma maravilha como sempre e minha escoliose sendo moldada pelo sofá. O tédio reinava, a "Lagoa azul" também e os farelos do biscoito se espalhavam pelo sofá (Odeio do fundo do meu coração esse farelos, por isso enfio um biscoito de uma vez só na boca, para evitar a sujeira), mas vou parar de enrolar... Quando eu menos espero o telefone toca. Fui muito arretada atender, jurando que era a mulher do Asilo Vovô João* pedindo ajuda, atendi:
-Alô?
-Alô, é da casa da Fabíola*? (Fabíola é minha mãe)
-Oi, é sim, mas ela tá trabalhando... Quer deixar recado?
-Oi, Thaís, quem tá falando é o Mário*, marido de Luísa*...
Uma pausa para explicação: Minha mãe e Luísa são amigas há anos, eu nunca havia atendido a uma ligação de Mário (o casal mora no Acre*)... Mas fiquei na minha e prossegui a ligação.
-Oi , Mário... Olha, tu queres ligar para o trabalho dela?
-Quero sim, qual o número?
-3333-7777
-Ok, brigada.
Voltei para o meu sofá lindo, peguei meu Treloso novamente e... A porcaria do telefone tocou de novo. Fiquei muito P. da vida, mas fui atender.
-Alô?
-Oi, Thaís, sou eu, o Mário.. Não consegui falar com a Fabíola, posso deixar o recado contigo?
-Ah, claro (Agora que você me fez perder o começo da Lagoa azul, pode falar uma hora aqui comigo, imagine que eu sou seu chat amizade)
-Thaís, avisa a Fabíola que Dona Amara faleceu. (Dona Amara era a sogra dele, mãe de Luísa)
-SÉÉÉRIO? (podem falar o que quiser, que minha pergunta foi ridícula, mas sempre eu reajo à essas notícias da pior forma... preciso trabalhar isso melhor)
Mário sem acreditar na minha pergunta idiota respondeu:
-Sério, o enterro será no fim da tarde no cemitério “Descanse em paz”*
-Morreu de quê?
-Coração.
-Ok, vou avisar a minha mãe.
-Obrigada.
Nessa hora fiquei meio em choque, sei lá, eu gostava de Dona Amara, era uma ótima pessoa e sempre que me via, fazia uma festa. Mas deixei a tristeza de lado e tentei ligar pra minha mãe.
Liguei pra empresa, liguei pro celular, liguei pro orelhão na frente da empresa, liguei pro Papa e minha mãe não atendia.
Resolvi ligar pra minha vó, que conhecia Dona Amara, para dar a notícia e pedir que ela ligasse pra minha mãe, vai que ela atendia.
-Alô, vovó?
-Oi minha fofinha, diga..
-Sabe quem morreu? (como podem perceber eu sou um pouco sem noção)
-Sei não..
-Dona Amara!
-Hen hen, foi nada! (E agora vocês percebem que genética é tudo.)
-Pois foi, vó, liga pra minha mãe e avisa, que eu não tô conseguindo.
-Tá certo, vou ligar...
Fui assistir ao filme, comer meu biscoito, mesmo que muito triste, não podia fazer nada, né?
Gente, de repente o portão abre, minha mãe chega aos prantos:
-Thaís, DONAAAAA AMARA MORREU!!!!!!!!!!!!!!!
-Eu sei mãe, eu mandei minha vó te ligar.
-Meeeu Deuuuuuuus, como aconteceu isso?
-Morreu, ué... Coração e tal..
-Se arrume, vamos ao enterro!
-Tá, mãe. (eu ia perder Malhação, mas tudo bem, não podia deixar minha mãe sozinha nessa hora).
Fomos ao cemitério. E antes de qualquer coisa, preciso dizer que é só entrar num cemitério que eu começo a rir, é tipo de nervoso sabe? Incontrolável. Contive-me e desci do táxi.
Todos choravam muito (Sério, Thaís? E a gente achando que tava rolando um Festival de Verão no cemitério) e eu sempre perto da minha mãe, já que o momento era difícil para todos.
Demos uma olhadinha no caixão, Dona Amara morreu serena. Falamos com a família toda, Luísa e Mário, o Viúvo e os demais.
Numa hora eu estava perto do caixão quando ouvi uma conversa de duas vizinhas de Dona Amara:
-Ela tava em depressão, por isso fez o que fez.
Minha mãe olhou pra mim e disse soletrando, praticamente:
- E-l- a s-e m-a-t-o-u
Fiquei em choque.É muito difícil entender como alguém, aparentemente feliz, tirou sua própria vida. Mas não podemos julgar ninguém, cada um tem problemas e a força para superá-los depende de cada um.
O velório continuava, as pessoas chegavam e eu rezava para que tudo acabasse logo, tava angustiada. Mas a verdade é: Sempre tem um lado engraçado em tudo na vida.
Eu estava sentadinha esperando a hora do enterro, quando minha mãe me chama:
-Thaís, olha quem chegou (isso bem baixinho).
-Quem?
-Lili*... (Ela é dona de um Buffet infantil, que tem todos os personagens da Disney, para animar as crianças)
Na hora eu só tive um pensamento:
-Mãe, o Mickey veio?
Minha mãe não entendeu e questionou com a cabeça...
Eu repeti:
-O Mickey veio com Lili?
Nessa hora minha mãe começou a rir muito. Como eu sou uma boa filha fui abraçá-la e disse no ouvido dela:
-O Pato Donald veio também.
Bicho, nesse momento eu e minha mãe já estávamos morrendo de rir, imaginando esses personagens no cemitério. Vocês aí façam um esforço e imaginem também.
Depois disso os parentes estavam dando o último adeus, todos muito comovidos com aquilo tudo...
Eu já não tava rindo, mas minha mãe resolveu chegar no meu ouvido e dizer:
-Thaís, sabe quem tá muito chateada?
-Quem?
-Margarida!
-Han?
-É rapaz, roubaram o laço da Margarida e colocaram numa coroa de flores, ela tá reclamando com o Pato Donald.
Mermão, eu juro que nunca ri tanto. Para vocês terem ideia, acharam, que a gente tava chorando, deram lenço de papel e tudo mais... Mas tudo não passava de gargalhada.
Cheguei a um ponto, que tive que andar pelos túmulos para me recuperar.
Finalmente o corpo foi enterrado e eu pude voltar pra casa. Essa história aconteceu há uns 7 anos, mas até hoje eu lembro e conto pra todo mundo. Não pude colocar a história na integra, mas coloquei as principais partes.
Com isso aprendi:
-Nunca atenda o telefone quando estiver assistindo à Sessão da tarde e comendo Biscoito Treloso.
-Tente se controlar em velórios e enterros, pois o morto pode se vingar, nunca se sabe.
-Reze para que donas de buffets infantis não apareçam em um velório
E por último:
Jamais use o laço da Margarida numa coroa de flores, ela fica muito chateada.
Beijos,
Thaís.
*Fabíola, Mário, Luísa, Dona Amara e Lili são pseudônimos.
*Mudei o estado onde Luísa e Mário moravam e o nome do cemitério.
*Infelizmente tive uma crise nervosa e não consegui parar de rir, mas tenho total respeito por Dona Amara.
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ResponderExcluirpara com isso :p
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